Por:
Bianca Camargo
São José dos Campos
Todo empreendimento precisa saber a hora certa de passar por mudanças corporativas. A Embraer encontrou este momento em meados de 2004, quando a empresa começou a mostrar sinais de morosidade e lentidão em seus processos, devido ao crescimento na linha de produtos e vendas que não foi acompanhado pela melhora na capacitação de seus colaboradores.
Três anos se passaram até que um plano de ação fosse definido e, em julho de 2007, a diretoria lançou o P3E – Programa de Excelência Empresarial Embraer. Segundo Hermann Ponte e Silva, diretor de Organização, Sistemas e Informação da empresa, o P3E é um sistema operacional baseado em um modelo japonês, que tem objetivos claros de levar a gestão, os processos e os produtos da Embraer à excelência.
"Essa iniciativa começou em processos e se expandiu para várias áreas, pois não se consegue mudar uma empresa sem ter a cultura adequada, lideranças transformadoras e pessoas qualificadas". Para chegar aos resultados esperados, foram determinadas quatro frentes-chave de atuação: cultura, pessoas, lideranças e processos.
CULTURA - Os trabalhos na frente cultura começaram a partir de um mapeamento interno de diversos grupos, separados em padrões arbitrários pelos diretores dessa frente, nas unidades do mundo todo, para identificar as características culturais.
A próxima fase foi instigar todos os empregados a pensarem sobre o que gostariam de ver na empresa, completando a frase "a Embraer que eu quero tem...". Já a terceira etapa foi realizar workshops com os funcionários, que ficaram conhecendo os resultados das pesquisas e puderam entender seu papel na melhoria qualitativa da empresa. "Isso é fundamental porque a cultura é a expressão do que uma empresa é, como trata seus clientes, como lida com a sociedade", disse Ponte e Silva.
Atualmente, os valores da Embraer são a importância das equipes para o sucesso da empresa, o servir bem aos clientes, a busca contínua pela excelência, a inovação como marca da empresa, o pensamento global e o alinhamento com a sustentabilidade do planeta.
PESSOAS- O P3E utiliza diversas ferramentas para o treinamento adequado de pessoal e manutenção do bom funcionamento de cada setor. A Embraer criou células de operação, chamadas células de melhoria contínua, e deu autonomia para que as pessoas envolvidas resolvam seus problemas. Para isso, usam as clínicas de qualidade, que identificam as dificuldades e possibilitam a reparação de erros. Há também a matriz de habilidade, que mostra as capacidades técnicas das pessoas de cada célula e, com isso, permitem ajustes e treinamentos necessários.
LIDERANÇA- O trabalho de treinamento de líderes é feito em três etapas dentro da Embraer. Primeiramente, há o programa para novas lideranças. A próxima fase é o aperfeiçoamento das habilidades de comando. Mais recentemente, a empresa implantou um programa para a formação de novos empresários, pensando na perpetuidade dos negócios.
"O líder é fundamental para a transformação da empresa. Se ele não estiver alinhado com os valores do P3E, a equipe vai demorar mais tempo para dar resultados e vai consumir mais recursos", afirma o diretor sobre a importância desta frente.
PROCESSOS- Uma das ferramentas do P3E é o kaizen, técnica japonesa para melhoria de processos. Ele começa com a identificação de um problema, e termina com a proposição de soluções. Cada estudo de caso demora cerca de duas semanas, envolve equipes de diversos setores e possibilita intensa troca de informações entre as áreas.
Hoje, a Embraer já realizou mais de mil kaizens em praticamente todas as áreas da empresa. Identificando o modo operacional de cada processo, foi possível identificar os ruídos de não-qualidade e removê-los ou atenuá-los.
Ponte e Silva informou uma queda de 70% da não-qualidade, que abrange desperdícios, reprocessamentos, retrabalhos, revisões ou falhas de informação. Com isso, a burocracia da empresa foi reduzida e a produtividade aumentou.
A CRISE- O P3E passou por uma prova de fogo durante a crise mundial. Devido à diminuição do volume de vendas, a Embraer realizou cortes em diversos setores da companhia, mas segundo Ponte e Silva, as demissões seriam maiores não fosse o P3E: "o programa foi importante por que deixou a empresa mais controlada. Ninguém esperava uma crise, mas ela chegou num momento em que a empresa estava mais organizada. Estamos melhorando de novo".